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pelo P. Bernard Peyrous

Falamos muitas vezes de contemplação a propósito da oração, da vida dos santos, dos monges, do itinerário espiritual pessoal de cada um. Diremos, por exemplo, de uma carmelita, que tem uma vocação contemplativa; de alguém que reza muito, que é uma alma contemplativa; de Maria, ao contrário de Marta, no Evangelho, que ela é uma contemplativa e que a sua irmã é uma activa, etc. A palavra contemplação faz parte do vocabulário cristão. Quando a utilizamos, sentimos bem
que nos referimos a algo forte, íntimo, no limite do segredo. Contudo, depressa nos confrontamos com uma questão de definição. No fundo o que é a contemplação? Será algo de completamente contrário à acção e que não diz respeito senão a pessoas em mosteiros ou a pessoas inactivas? Queremos fazer aqui um esforço de clarificação e de compreensão.

Entre as numerosas definições da contemplação existe uma excelente de um monge de Solesmes, D. Guy-Marie Oury: "Contemplar é olhar atentamente e com admiração; quando se contempla com os olhos do corpo isso supõe uma certa estabilidade no olhar, uma permanência, imobilidade : contempla-se uma bela paisagem; demoramo-nos diante dela, dificilmente nos afastamos. Quando contemplamos com os olhos da alma, fixamos o olhar interior sobre um objecto sem multiplicar os actos distintos. De todas as maneiras, a contemplação implica necessariamente uma actividade da alma; isto verifica-se no caso da contemplação de uma obra de arte.

No domínio das relações com Deus, a contemplação é o cume da oração cristã. Toda a tradição espiritual está de acordo com isto: a contemplação supõe uma certa visão de Deus imperfeita e indirecta (porque a contemplação imediata, face a face está reservada à eternidade) e uma certa experiência.


Contemplar é a vida da alma

Conhecemos as passagens da Escritura em que se diz: "Jesus pousou nele o seu olhar..." A contemplação é de alguma maneira o gesto inverso: somos nós que pomos o nosso olhar sobre Deus. Pomo-lo, quer dizer que ele permanece estável, como preso, quase imóvel, sobre Deus. É um "olhar, simples e amoroso, para Deus". Ao fazer isso, deixamos as nossas preocupações, os nossos cuidados, o nosso olhar permanente e doloroso sobre nós: de alguma maneira ligamo-nos a Deus.
Como dizia tão bem Bossuet: " Temos de nos habituar a alimentar a nossa alma com um simples e amoroso olhar em Deus e em Nosso Senhor Jesus Cristo." Este olhar não é vazio, não é sem consequências, pelo contrário. Quando nós colocamos o nosso olhar em Deus há como uma trasfusão Dele em nós. No silêncio, a vida de Deus é derramada na nossa alma.
É por isso que S. Gregório de Nysse podia dizer no sentido forte da palavra: "Contemplar é a vida da alma." Por seu lado S. Ireneu dizia: "A glória de Deus é o homem vivo e a vida do homem é a visão de Deus".

Por outras palavras, o homem é feito para ver a Deus. Sobre esta terra nunca O verá face a face. Mas os olhos da alma vão mais longe que os olhos do corpo. No cume da oração encontra-se então uma espécie de visão de Deus, que tem um carácter de real estabilidade, e que se chama a contemplação. S. Teresa de Ávila dizia: "Eu quero ver Deus!" É exactamente o que se passa na contemplação. O que é que ali acontece? Aparentemente nada, ou melhor, nada a nível da sensibilidade: a verdadeira contemplação está muito para além dos fenómenos sensíveis. Quase nada a nível da inteligência: a inteligência descreve laboriosamente somente uma parte dos fenómenos contemplativos. Pelo contrário é uma verdadeira experiência.
Há aqueles que a fizeram e aqueles que a não fizeram. E a alma contemplativa reconhece muito bem uma outra alma contemplativa. É uma certa forma de experiência de Deus.

Um caminho de pobreza

É preciso então identificar a contemplação com fenómenos como êxtases, visões, etc? Não. A contemplação é algo de fundamentalmente mais simples. Está para além dos fenómenos místicos e carismáticos. Estes não são senão meios para lá chegar. Há pessoas que têm uma vida contemplativa profunda e cuja vida espiritual nunca apresentou nenhum fenómeno particular.
Elas não têm mesmo nenhuma ideia do grau de contemplação a que chegaram. Com efeito, pelo baptismo, todo o cristão é chamado a isto. Mas é preciso que ele se empenhe neste caminho.

Como tornar-se contemplativo? O caminho da oração é o caminho da oração e da conversão. A conversão é o que desobstrui os caminhos; é renunciar a si mesmo para seguir a Cristo. Está ligada ao combate espiritual e especialmente aos progressos na humildade, na pequenez, na confiança e no abandono. A oração, quer dizer o diálogo com Deus, é um elemento motor
essencial. Há primeiramente um tempo em que estruturamos a nossa oração, somos muito activos, muito voluntários - e é preciso sê-lo porque sem esforço, não há verdadeira vida de oração. Como diz S. Gregório, o Grande: "Os favores da contemplação não nos serão nunca concedidos se nós não nos aplicarmos com o maior cuidado à meditação, à leitura quotidiana, à oração, se nós não aprofundarmos as verdades que estão ao nosso alcance." Depois, pouco a pouco, a oração torna-se, de alguma maneira, natural. Prolonga-se, transborda na vida. Um dia chega-se a já não poder rezar com palavras. A oração torna-se aparentemente muito pobre. Mais Deus supre então aquilo que o homem já não consegue fazer. Quanto menos pomos de nós, mais Ele dá do que é seu. Entra-se numa oração, num contacto mais despojado, mas também muito mais profundo. Este
contacto tende a tornar-se permanente, a presença de Deus não deixa mais a alma, e entra-se então na contemplação.
Mesmo de noite, se tem por vezes, o sentimento de não deixar Deus: " Eu durmo, mas o meu coração vigia." " Todo o interior do homem é transformado, o seu amor inflama-se, a sua inteligência é iluminada; parece que a fé deu lugar a uma percepção mais directa, e uma mística como Maria da Incarnação, dirá: "Já não creio, eu vejo"

Temos que lembrar aqui que a contemplação não é um fenómeno isolado. Ela invade toda a vida, e mesmo toda a actividade. Bergson fazia justamente notar que os místicos estavam entre os mais activos. A contemplação não afasta da vida. Pelo contrário leva-nos de volta à vida. Ela torna-nos solidários dos homens, que compreendemos melhor em profundidade, de quem apreendemos melhor as necessidades essenciais. Sabemo-lo bem pelo apostolado. Os Dominicanos não devem "contemplar e entregar aos outros o fruto da sua contemplação"?

Pode haver verdadeiros contemplativos no seio da vida de família, nos negócios, na política, no exército, nos artistas, nos estudantes, como nas crianças. A contemplação não é inútil para a família humana ou para a Igreja. Ela não forma marginais. Pelo contrário, se o mundo deve ser transformado, sê-lo-á pelos contemplativos. Graças à sua oração, eles são os verdadeiros agentes da acção de Deus no mundo.

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